Por que não odiar Anitta?

Uma análise sobre a videografia e a carreira de uma das cantoras mais polêmicas do Brasil.

Seria redundante começar este texto contando a história da Anitta. A essa altura com certeza você já ouviu pelo menos alguma parte da história da garota que saiu dos bailes funks do Rio de Janeiro para as paradas de sucesso até chegar à abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. Causando por onde passa, a multimidiática Anitta é atualmente uma das artistas que mais trabalha, fazendo dezenas de shows pelo país (ao final de agosto, serão 15) e aparições na TV, sendo praticamente impossível se manter imune ao trabalho da cantora.

Com uma videografia das mais interessantes, Anitta lançou no último mês de Julho um videoclipe em colaboração com o cantor colombiano Maluma. O resultado dessa união é o vídeo clipe “Sim ou Não”, que bateu os recordes de visualizações da própria cantora, contabilizando 1,7 milhão de exibições em menos de um dia, no Youtube. Trinta dias depois, passada a euforia do lançamento, o contador do site marca 30 milhões de exibições.

Os videoclipes são um elemento fundamental para o sucesso da cantora. O primeiro deles, ainda como artista da Furacão 2000, é “Menina Má” e já demonstra uma preocupação da cantora e do seu staff com coreografias, figurinos e roteiro. Apesar do orçamento infinitamente menor, a saída é criativa, o resultado não constrange e a mensagem é passada.

O primeiro grande clipe veio com Meiga e Abusada, dirigido pelo norte-americano Blake Farber que deu uma cara pop ao trabalho da cantora. O diretor, que já dirigiu clipes de artistas como Beyoncé, deu um tom Katy Perry para o funk melody de Anitta e o single fez bonito nas paradas e ajudou a divulgar o nome da cantora fora do Rio de Janeiro. Além disso, as cenas gravadas nos EUA chamaram a atenção e aí… O grande sucesso veio mesmo com Show das Poderosas, dirigido por Thiago Calvino, que já assumiu os clipes de Biel, Ludmilla e outros artistas. O videoclipe viralizou e transformou a coreografia numa espécie de Macarena do funk carioca. Três anos depois, ainda é possível encontrar uma galera se arriscando na coreografia por aí.

Depois vieram clipes de menor destaque, como Não Para, dirigido por Eduardo Magalhães, no qual Anitta interpreta uma garçonete que desbanca uma cantora sem talento também interpretada por ela mesma, Zen e Cobertor, baladinhas românticas que mostram que Anitta também tem um crush, assim como todos nós. Em Zen, também dirigido por Thiago Calvino é Victor Sprapane e em Cobertor, dirigido por Fred Outro Preto, o boy da vez é o cantor que colabora na faixa, Projota. Eu diria que são os clipes menos ousados da cantora, apostando na fórmula romance + galã conhecido do público

Em Na Batida (direção de Fred Ouro Preto), primeiro single do segundo CD da cantora, Anitta apresenta um de seus melhores clipes e ao mesmo tempo um dos mais sem sentido. Interpretando três papéis que tem em comum a atenção do namorado de uma garota que faz de tudo para atrapalhar sua vida, ora numa academia de dança, ora num jantar chique e também numa espécie de encontro de motoqueiros (?). A coreografia é um acerto: é daquelas que você vê até sua tia na sala se arriscando a copiar os passos. A direção de arte de Igor Mariwaki merece destaque pela ousadia. Esse é o primeiro clipe a destoar de fato visualmente dos outros.

Seguindo a trilha videocliptica da cantora, nos deparamos com uma dupla de clipes dirigidos por Alex Miranda e Raul Machado, dupla da Trator Filmes que já dirigiu clipes de Pitty e Tiago Iorc. Formando uma espécie de curta-metragem Ritmo Perfeito e No Meu Talento mostram Anitta se dividindo entre a vida de cantora de gafieira no primeiro e como stripper no segundo. Os dois clipes são bons, mas o primeiro ganha na fotografia e na direção que apostou na sensualidade mostrando Anitta e o ator principal do clipe em uma dança a dois de tirar o fôlego. No segundo, o destaque é a tentativa de resgatar a verve funkeira da cantora, mas as cenas com MC Guimê interpretando uma espécie de cafetão não convencem.

Entre o segundo álbum e o terceiro, Anitta rompeu com a sua antiga empresária e assumiu a própria carreira, o que levou a muita especulação sobre quais seriam seus próximos passos. Então foi a vez de a cantora dar à luz a Deixa Ele Sofrer, primeiro single de Bang. Dirigido por Gustavo Camacho, que já esteve à frente de um clipe de Shakira, e pela própria cantora, o clipe tem fotografia interessante mas deixa a desejar quando se esforça em emular um plano-sequência. O clipe é bom, mas não empolgou quem esperava uma renovação no trabalho da cantora.

Quando já tínhamos certeza que nenhum clipe da cantora ultrapassaria a repercussão de Show das Poderosas, chegou a vez de Bang O clipe que tem direção de Bruno Ilogti, que tem no currículo campanhas publicitárias de clientes como Arezzo e Vivara, conta com a direção criativa de Giovanni Bianco, artista ítalo-brasileiro consagrado por trabalhar com ninguém além do que Madonna, mas que aqui no Brasil, já assinou trabalhos com Ivete Sangalo, Marisa Monte e Gisele Bundchen. O clipe quebrou os recordes da própria cantora e elevou a sua carreira a outro patamar. A partir dele, ficou bem mais evidente o posicionamento da artista como uma das maiores do Brasil e o tamanho do investimento tem a ver com isso. O clipe parece ter vindo para mostrar ao público a grandiosidade que o trabalho da cantora poderia alcançar, aqui ou no mundo.

Com a música na boca da galera, 200 milhões de exibições no clipe e a coreografia sendo repetida em todo canto, Anitta repetiu a equipe em Essa Mina é Louca. O clipe causa um certo estranhamento, pela opção de captar as imagens numa técnica que remete ao stop-motion mas a estética ousada também reforça a imagem de Anitta como uma artista pop. As cores e o uso dos elementos de HQ, assim como em Bang, trazem um verniz pop que se afasta da imagem da garota de Show das Poderosas. O resultado, para variar, foi sucesso.

A essa altura, Anitta já é um dos maiores fenômenos da música. A cartilha de estrela pop é cumprida pela cantora e pela mídia, com a repercussão de cirurgias plásticas, affairs e ataques de estrelismo sempre nas primeiras páginas dos sites de celebridades. A especulação sobre uma carreira internacional se torna inevitável com o vazamento de uma versão em inglês de Bang e todos aguardam o próximo passo da carreira da cantora.

Sem muito alarde e divulgação, o penúltimo clipe lançado pela cantora foi Cravo e Canela. O trabalho realmente parece limitado em relação aos seus antecessores e não pegou. A equipe de Giovanni Bianco, que inovou nos outros dois clipes, parece ter perdido a mão, num clipe que não tem pé e nem cabeça, que mostra Anitta flertando e sensualizando no trânsito num dia chuvoso

Anitta, que não é boba nem nada, vem esboçando desde o primeiro disco um flerte com a língua espanhola e o resto da América. A primeira música a ser lançada por lá, após o sucesso de Show das Poderosas, foi Zen. Na versão en castellano del hit, Anitta divide os vocais da canção com o cantor espanhol Rasel. No clipe, a cantora mostra os bastidores de sua rotina durante uma viagem internacional. Depois veio Ginza, uma colaboração com JBalvin, que pegou e tem um bom clipe, cuja participação Anitta gravou aqui mesmo. O resultado não é dos mais empolgantes, mas…

Em Sim ou Não, clipe lançado na última semana, Anitta cava mais fundo o seu espaço como expoente de uma cena pop atual no Brasil e também mostra o desejo em internacionalizar mais ainda sua carreira. A parceira com o cantor colombiano Maluma, dono de mais de 2bi de exibições no YouTube mas ainda pouco conhecido no Brasil, traz cenários e figurinos luxuosos. O diretor do clipe é Jessy Terreiro, diretor de clipes da República Dominicana com vasta experiência em artistas latinos. O cara tem no currículo clipes de Jennifer Lopez, o próprio Maluma, Anahí e Paulina Rubio, além de rappers como Mary J Blige e 50 Cent. O clipe mostra Anitta em figurinos ousados contracenando com Maluma numa boate mexicana. Obviamente, a intenção não é revolucionar nem no clipe e nem na música. Apostando na química e nos corpos dos cantores, Sim ou Não quer mais mostrar do que Anitta é capaz. A fotografia e o cenário são impecáveis; Anitta mostra mais uma coreografia muito bem executada; os figurinos impactantes (Anitta usa até sandália com meia!!!) e a produção é grandiosa, mas isso não parece ter intimidado a cantora que dominou o clipe, como se tivesse no seu próprio quintal. A repercussão explodiu, o clipe bateu todos os recordes de visualizações da cantora e o caminho para a carreira internacional parece estar sendo pavimentado, com cuidado, com investimento.

Esse é um dos diferenciais da carreira de Anitta. Hoje poucos artistas produzem videoclipes com essa relevância, no Brasil, principalmente na música pop e se esse número vem aumentando, também tem a ver com as produções de Anitta.

Expoente da cena do tal funk pop, ao lado de outros fenômenos musicais duramente criticados, o sucesso de Anitta incomoda os defensores da tal “boa música brasileira”. Hoje, mesmo que ela não seja dona de uma grande voz e que suas músicas não tenham lá grande variação entre temas e arranjos, ela domina o mercado como poucas cantoras souberam fazer no Brasil e cumpre a sua missão, dentro da sua proposta. Os lançamentos de seus clipes estão sempre em parceria com as principais marcas que Anitta trabalha, alavancando ainda mais seus lançamentos que sempre contam com engajamento total da equipe da cantora na promoção, se aliando as redes sociais para extrair o melhor resultado em números. Em Sim ou Não, a parceria foi com a Samsung, mas Pepsi, Vivara e Tang também já associaram suas marcas aos clipes de Anitta. Isso é mais do que associar-se à imagem de um artista, é também se associar a música dele, além de uma forma inteligente de captação de recursos, dada a realidade do mercado videocliptico brasileiro.

Seus clipes, apesar da diversidade de diretores, têm em comum o toque pessoal da cantora e isso faz a diferença. Alguns são melhores do que outros, mas no geral, não fazem a cantora passar vergonha (nem mesmo Menina Má, o primeiro), isso é reflexo de um cuidado que acompanha a carreira da cantora desde o início.

Se Anitta é a primeira diva pop Brasileira ou se a sua carreira vai durar mais 5 ou 50 anos, eu não sei responder. Mas hoje temos uma artista das mais interessantes, com uma produção videocliptica digna e constante e isso pode não ser o suficiente para se render à cantora, mas é um fato digno de orgulho para o mercado fonográfico. Anitta ainda encontra resistência, mas é uma artista pronta pra abraçar o mundo e alçar voos muito maiores, pelo menos no que diz respeito aos seus videoclipes.

Por Leonardo Sales

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s