#brazucas: Videoclipia do cineasta Roberto Berliner

Que Roberto Berliner é um documentarista de mão cheia, estão aí obras-primas como “A Pessoa é Para O Que Nasce”, “Herbert de Perto” e “Pindorama: A Verdadeira História dos Sete Anões” para comprovar. Que ele estreou com tudo no cinema de ficção, está em cartaz há várias semanas nos cinemas brasileiros “Nise – O Coração da Loucura”, estrelado por Glória Pires, reunindo multidões. Porém, o tema deste texto é a respeito de uma das áreas em que o cineasta foi um dos primeiros a se aventurar e com consistência no Brasil, os videoclipes. Entre os artistas com os quais trabalhou estão Paralamas do Sucesso, Skank, Pedro Luís e a Parede, Fausto Fawcett e Dulce Quental.

O primeiro videoclipe dirigido por Roberto Berliner foi “Délica”, para Dulce Quental, em 1985, para o programa “Fantástico”, da TV Globo, até então o único espaço de exibição desse tipo de produção na televisão brasileira. Ele começa com várias imagens de origens diversas, como trechos de filmes, caso de “Guerra nas Estrelas” e estrelados por ícones como Fred Astaire e Eddie Murphy, até trechos de noticiários. Há, inclusive, imagens de um documentário feito na China pelo futuro cineasta Walter Salles Jr.

A produção é bastante simples e cantora aparece em primeiro plano com a imagem sobreposta a outras de uma cidade durante a noite. A partir daí, intercalam-se as duas situações – imagens de arquivo e as da cantora com sobreposições. Há pouquíssimas mudanças de figurinos e alguns passeios da câmera pelo ambiente onde se encontra Dulce Quental, que aparece também de perfil e com close na boca. No final, a imagem dela surge triplicada na tela. Com ares bastante experimentais, o videoclipe apresenta um resultado bastante eficiente.

Entre os que ficaram encantados com o trabalho de Roberto Berliner com Dulce Quental, estavam os integrantes dos Paralamas do Sucesso – Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone –, os quais estavam cansados de estrelar os videoclipes superproduzidos, com pistas de motocross, no “Fantástico” e desejavam, para lançar o terceiro álbum “Selvagem?” (1986), de um clipe que os mostrasse mais próximos da realidade social brasileira, uma das temáticas mais presentes no trabalho. O diretor, então, optou por intercalar imagens de arquivo, como as de uma represa poluída, e de anônimos (como o rapaz que no final grita “Brasil!”) com outras de registros da banda, tocando diante de uma favela e tomando uma geral num baile funk, o qual ainda não era tão comentado no asfalto como aconteceria tempos depois, muito em função também da pesquisa realizada pelo antropólogo e irmão de Herbert, Hermano Vianna.

Para uma canção composta por Herbert Vianna e que começa com os versos “Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia / Traz do sonho pro mundo, quem já não queria / Palafitas, trapiches, farrapos / Filhos da mesma agonia”, Roberto Berliner caprichou no registro de anônimos como puxadores de carrinho de papel, carregadores de papelão e crianças, que têm as oportunidades negadas e veem a face dura do mal, como indicam outros versos. Mas todos parecem não perder a esperança e demonstrar a alegria de viver, típicos de quem tem a arte de viver da fé, só não sabe fé em quê. O videoclipe provocou tanto impacto e que foi premiado pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD) e pelo Rio Cine Festival.

As duas principais características de “Alagados” se repetem em “Kátia Flávia” (1987), de Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, e que Roberto Berliner dividiu a direção com outra cineasta brasileira contemporânea importantíssima, Sandra Kogut. São elas: imagens de arquivo, no caso do seriado norte-americano “Dama de Ouro” e do videoclipe “Borderline”, dirigido por Mary Lambert para Madonna; e outras de anônimos na noite de Copacabana, em meio as garotas-de-programa loiras que ocupam as esquinas e as boates, principalmente da rua Prado Junior.

A crueza é a tônica dessa produção, totalmente de acordo com os versos certeiros de Fausto Fawcett, que se torna o melhor cronista do submundo do Rio de Janeiro, uma cidade repleta de cidades misturadas com governos sorrateiros ocultando o comando. No caso, Kátia Flávia é descrita como uma louraça belzebu, provocante, que só usa calcinhas comestíveis e bélicas, com armamentos bordados, e que ficou famosa por andar num cavalo branco, pelas noites suburbanas, toda nua. Há também uma edição bastante frenética e caprichada, dialogando com a batida funk da canção.

O videoclipe mais experimental de Roberto Berliner é “Trac Trac” (1991), dirigido em conjunto com o artista multimídia Gringo Cardia, para os Paralamas do Sucesso. Filmado em 16 milímetros como um plano-sequência em ritmo frenético, ele é um passeio pelas ruas do centro do Rio de Janeiro num final de semana. Com participação da atriz Marcia Cabrita (que ficaria conhecida como a doméstica da sitcom “Sai de Baixo”), essa produção intercala pontos de vista, ora em primeira pessoa, ora em terceira pessoa, e deixa os integrantes da banda totalmente em segundo plano, aparecendo poucos segundos em alguns pontos estratégicos, como andando de moto, sentados numa calçada e tomando um café num boteco. O clipe termina com o trio tocando diante de uma loja fechada. É possível fazer uma comparação com outro clipe, “Open Your Eyes”, estrelado por Snow Patrol e que mostra um passeio pelas ruas de Paris realizado pelo cineasta Claude Lelouch em 1976.

Outra parceria bem-sucedida de Roberto Berliner foi com a banda mineira Skank, com a qual começou a trabalhar no hoje clássico videoclipe “É Uma Partida de Futebol”, que é extremamente documental e poderia ser facilmente definido como “o estádio do Mineirão em dia do clássico Cruzeiro e Atlético Mineiro”. A produção começa e termina com o porteiro abrindo as portas e, entre os dois, aparecem imagens da torcida se encaminhando para o estádio, a preparação no vestiário e lances de dois jogos – o clássico mineiro e um combinado de artistas veteranos e artistas, caso de, entre outros, Jorge Benjor e Evandro Mesquita.

Um detalhe interessante é a locução do jornalista e técnico de futebol João Saldanha: “O futebol é um ramo da arte. Eu chamaria de arte popular”. Outro é que o Skank conta com dois integrantes que torcem pelo Atlético Mineiro e depois para o Cruzeiro, e, por isso, foram deslocados para as respectivas torcidas. Por fim, como algumas imagens ficaram faltando na diária do Mineirão, elas foram captadas no Maracanã.

A edição é incrível e remete aos filmetes do “Canal 100”, que encantaram gerações que chegavam pontualmente nos cinemas para assisti-los antes de começar o filme principal. Por isso, há muitos closes nos pés dos jogadores, o que coloca o espectador dentro de campo de modo impressionante. O resultado, claro, foi um videoclipe bastante vibrante e que fez grande sucesso, sendo premiado no Video Music Brasil (VMB), premiado anual concedido pela MTV Brasil. Nada mais condizente para versos enérgicos como “Posso morrer pelo meu time / Se ele perder, que dor, imenso crime / Posso chorar se ele não ganhar / Mas se ele ganha, não adianta / Não há garganta que não pare de berrar”.

Por fim, vale a pena destacar o polêmico e tão sensacional quanto os anteriores, “Caio no Suingue” (1998), de Pedro Luís e a Parede, no qual Roberto Berliner dividiu a direção com Leonardo Domingues e Joshua Callaghan. Tendo como principal referência a capa do álbum “Eletric Ladyland” (1968), do guitarrista Jimi Hendrix, a produção conta com uma série de pessoas anônimas e outras nem tanto totalmente nuas e em contato umas com as outras. Há de tudo – margo, gordo, negro, branco, alto, baixo, crianças, idosos, com os peitos pequenos, com os peitos grandes e caídos etc. Trata-se de uma orgia totalmente democrática e visualmente belíssima.

A produção começa com roupas caindo e os integrantes da banda carioca Pedro Luis e a Parede com seus respectivos nomes e imagens na tela, com as genitálias cobertas apenas pelos instrumentos musicais. Há muitos closes e muitas sobreposições Mesmo não havendo qualquer imagem que insinue ou sugira uma relação sexual, o videoclipe pagou pela ousadia e foi proibido de ser exibido pela MTV Brasil nos horários de maior audiência. Coube a ele então o período da madrugada.

Portanto, trafegando por diferentes veredas e trabalhando com artistas de mais diferentes vertentes musicais, Roberto Berliner mostrou, através dos videoclipes, ser um diretor extremamente criativo, detalhista e cuidadoso com cada um de seus trabalhos, sempre demonstrando uma marca autoral bastante explícita. É o mesmo que se percebe nos documentários que realizou e agora em sua estreia como diretor de ficção em longa-metragem.

Por Guilherme Bryan, criador e titular da coluna Brazucas.

Quinzenalmente, a coluna publica textos sobre o universo do videoclipe brasileiro.

 

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