Muito além das sensações com Florence + The Machine

Florence + The Machine é uma banda inglesa encabeçada por Florence Welch, que desde 2010 chama atenção com seus vocais poderosos, visual etéreo e toda sua vibe mística que entrega nas canções. “How Big, How Blue, How Beautiful”, o terceiro disco da carreira, lançado em maio de 2015 após uma pausa de quase três anos, foi produzido por Markus Dravs – que tem em sua bagagem produções como Homogenic da Björk e The Suburbs do Arcade Fire.

A proposta para essa nova era foi investir na música para se ver, além de se ouvir e sentir. Em parceria com o diretor Vincent Haycock foi idealizada “The Odyssey”, uma jornada por dentro da cabeça, do coração e da vida de Florence durante o hiato entre os discos: tempo necessário para que resolvesse suas questões pessoais.

Começando por “What Kind Of Man” na qual temos um diálogo que já nos dá ideia do que está por vir. Um casal conversa sobre como passar por uma tragédia pode aproximar duas pessoas. Ela mesma cria a tragédia a partir daí, a metáfora é o acidente de carro que desencadeia os fatos que serão vistos pelos próximos vídeos. Com um trabalho de dança contemporânea magnífico de Ryan Heffington (que já esteve com Sia e Maddie Zigler) , vemos Flo sendo controlada pelas “sombras” dos homens que passaram em sua vida e como isso vai separar o casal.

Nos vídeos seguintes somos levados ao que se passa em sua mente, elementos como a chuva e o fato dela estar sempre sendo carregada são recorrentes, além de referências à Divina Comédia e a São Judas Tadeu na canção “St. Jude”,na qual o santo das causas impossíveis é invocado numa tentativa de recuperar o que já se sabe que não tem jeito.

Em “Ship To Wreck” entendemos a presença de duas Florences: uma passiva, conformada que apenas assiste a segunda, que é destrutiva, descontrolada e está acabando com sua vida. A passividade também é presente nas figuras masculinas que em muitos momentos apenas olham ou estão ocupados demais carregando seus pesos como penitência. A coreografia, mais uma vez, é usada trabalhando a dualidade da calma e da fúria no mesmo cenário.

Após mais uma jornada pela mente e o passado, a cantora é apresentada como a rainha da paz cantada em “Queen of Peace”, que sempre esteve tentando acalmar os ânimos, apartando os conflitos alheios e anulando os próprios.

É em “Delilah” que temos a história inteira da odisseia resumida em apenas um vídeo e, talvez, nesse a história seja mais bem contada para um espectador que não se aprofunda. As duas personalidades aqui começam a ter uma sincronia, e surge uma figura que  guia Flo para fora desse caos e do domínio dos fantasmas do passado. Vemos essa mulher se debater como quem paga uma penitência, ignorada pelas pessoas, mas que está passando pelo mesmo que a personagem no início da narrativa e sabe o que ela sente.

Há mais uma chuva de referências, com imagens de demônios, o conto de Sansão e Dalila, e a um retorno aos primeiros vídeos. O círculo começar a se fechar. Podemos vê-la sobre o carro, dessa vez sem medo, controlando seu próprio destino –  o que a leva ao desfecho da história em “Third Eye”.

Aqui começa o domínio sobre todos os fantasmas, que são deixados para trás junto com seu eu caótico que é desmascarado como outra pessoa. A dança tem um papel fundamental de expressar o que se passa sem a necessidade de grandes explicações. Vemos aqui a Florence de verdade se preparando no camarim com Rob, seu amigo e parceiro de banda, que a encaminha até o palco com os gritos dos fãs aos fundos.

É onde fica claro que toda a narrativa fantástica e cheia de elementos lúdicos não passou de um desabafo da própria cantora que durante sua vida lidou com alcoolismo, depressão, relacionamentos conturbados e outras dificuldades que foram todas levadas ao papel e em seguida ao seu trabalho em forma de pura arte.
Os clipes, no fim, são apenas o complemento visual para uma jornada de descoberta, de superação, renovação e tudo que se passa e o que nos tornamos ao fim de um relacionamento. O uso de imagens místicas e contextos subjetivos é grande, o que gera uma grande margem para interpretações e identificação com a obra e possibilita que nela enxerguemos nossa própria odisseia.

Por Pedro Henrique Alves a.k.a Teqkira

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