#brazucas: A carreira do Kid Abelha em videoclipes

O anúncio do término do Kid Abelha no final de abril não foi uma grande surpresa. Há tempos que Paula Toller e George Israel vinham se dedicando às respectivas carreiras solo. Mas nem por isso deixa de ser triste saber que não existe mais aquela que é uma das mais emblemáticas bandas do pop rock nacional e que nunca fez questão de disfarçar ou esconder ser de fato bastante pop, muito pelo contrário, expôs essa característica até a última gota e nem por isso deixou de ser autoral.

Desde 1981, quando Paula Toller era morena, Leoni fazia parte da banda e o nome completo era Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, que o grupo vem colecionando hits nas paradas de sucesso, numa carreira marcada não por vendas astronômicas de discos, mas pela ausência de altos e baixos. Num total, de 18 álbuns, incluindo os cinco ao vivo, muitos foram os videoclipes colecionados ao longo da carreira e uma parte considerável deles é o que você encontrará neste artigo.

O primeiro álbum, “Seu Espião”, de 1984, vendeu cerca de 150 mil cópias e foi um campeão de canções entre as dez mais tocadas nas rádios de todo o país – “Seu Espião”, “Nada Tanto Assim”, “Alice (Não Me Escreva Aquela Carta de Amor)”, “Fixação”, “Porque Não Eu?” e “Pintura Íntima”. Mas talvez nenhum tenha sido mais contagiante do que “Como Eu Quero”, da dupla Leoni e Paula Toller. E se na época o comum era protagonizar videoclipes exibidos no “Fantástico”, programa dominical da TV Globo, não deu outra. Lá estava Paula super misteriosa, através de um véu todo brilhante, caminhando, graças a muitos efeitos visuais, pelas águas da piscina do Parque Lage, cenário de tantos filmes icônicos do Cinema Novo.

Eis que surge George Israel na tela de um então moderno computador fazendo movimentos da dança break com as mãos vestidas por luvas brancas e de boné com a aba virada para o lado. Há várias sobreposições e efeitos visuais, como o uso de stop motion, considerados avançados para a época. Paula, então, desenha um dos integrantes da banda no papel e ele se materializa numa sombra que aparece na parede de alguém correndo no corredor do mesmo espaço.

O álbum seguinte, “Educação Sentimental”, ficou marcado por ter sido o último a contar com Leoni como integrante da banda. O fato é que, na época, o disco também foi muito bem de venda e emplacou vários sucessos, como a faixa-título, que contou com duas partes, “Os Outros”, “Garotos”, “Uniformes” e “A Fórmula do Amor”. Para lançá-lo, mais uma vez, no “Fantástico”, o quarteto contou com um videoclipe parra a canção “Lágrimas e Chuva”, outro hit destruidor, e que mostra imagens dos rapazes tocando na praia, enquanto Paula Toller destrói vários objetos no quarto, abraça o travesseiro e olha pela persiana do quarto. Todas as imagens são recheadas de efeitos visuais então modernos, principalmente de colorização na pós-produção.

“Tomate” foi o primeiro álbum de estúdio sem Leoni e não fez lá grande sucesso, apesar de contar com alguns hits, como “Amanhã é 23” e “No Meio da Rua”. Já estamos em agosto de 1987 e num período em que várias produtoras, denominadas independentes, começaram a realizar videoclipes para serem exibidos em outras emissoras, já que a TV Globo exibia praticamente só a produção própria. Todo em stop motion, o videoclipe da faixa que dá título ao disco é bastante divertido, mostrando imagens do trio e do baterista Claudio Infante em preto e branco, ora apenas do rosto e ora do corpo todo, inclusive com a troca de roupas, como se fossem bonecos de papel, uma moda entre as crianças da época. Aparece também a imagem dos quatro integrantes dentro de cubos enfiados na cabeça de pessoas que saltam de um lado para o outro da tela, com várias sobreposições. Todos os integrantes ainda se transformam em bonecos de marionete. Por fim, as imagens aparecem misturadas e fatiada em vários pedaços horizontais.

Em julho de 1990, é inaugurada a MTV Brasil, a filial da emissora norte-americana que havia revolucionado a música pop dos anos 80. Com certo atraso, o novo canal, inicialmente transmitido por UHF, financiou alguns videoclipes nacionais – algo inédito no mundo inteiro. Uma dessas produções foi “No seu lugar”, dirigida por Nando Buco (muitas vezes essa produção é creditada erroneamente a Lui Farias), para a divulgação da coletânea “Greatest Hits”, lançada naquele ano.

A produção, em ritmo super acelerado, mistura imagens de anônimos no Marrocos a outras da banda em Barra do Saí, no litoral norte de São Paulo. Há também imagens em preto e branco, coloridas e descoloridas que chegam até a girar na tela e causam a impressão do efeito de raio-X. Muitas sobreposições e ângulos inusitados deixam o videoclipe ainda mais envolvente e até hoje bastante atual e surpreendente. No final, a televisão parece estar com defeito e prestes a sair do ar até que a imagem fica congelada.

O ultra sofisticado “Grand’Hotel”, do Kid Abelha, dirigido por Lui Farias em Veneza, na Itália, filmado em Super-8, foi outro videoclipe que fez grande sucesso na programação da MTV Brasil e ajudou muito na divulgação do álbum “Tudo É Permitido”, de 1991. Há também imagens feitas em Nova York e no Brasil, numa produção que contou com a fotografia do craque Flávio Colker.

O clipe é marcado pelo uso intenso do branco e de diferentes tons de cinza em imagens que mostram, em velocidades diferentes, com destaque para a câmera lenta, partes e em posições inusitadas dos três integrantes. A iluminação estourada também é uma tônica, entremeada por algumas poucas imagens coloridas. Apesar de financiado pela gravadora do Kid Abelha, Warner, essa produção foi editada nas dependências da emissora musical.

O álbum “Iê Iê Iê”, de agosto de 1993, teve um grande sucesso, “Eu tive um sonho”, que recebeu um videoclipe bastante especial, principalmente para os são-paulinos. Paula Toller apareceu contracenando com o então craque do time do Morumbi, Raí, durante um treino do São Paulo. Dirigida pelo fotógrafo Flávio Colker, que já havia trabalhado com a banda em outras oportunidades, a produção é marcada pelo capricho na captação das imagens que contam a história da garota que sonha em se tornar uma jogadora de futebol. É verdade que há algumas cenas bastante literais com relação a letra da canção, mas a maioria delas parece ser uma espécie de gelatina que escorre pela tela. Em meio a anões de jardim e souvenir do Empire State Building, é impossível resistir a ver Paula Toller deitada no gramado, usando o uniforme tricolor e com a câmera passeando pelo corpo dela. Para as meninas, há vários closes em diferentes partes de Raí, caso das elogiadas pernas e dos lábios carnudos. É a ele que cabe a última cena, que é a da famosa troca de camisas.

Mas, sem dúvida, um dos videoclipes mais conhecidos e aclamados do Kid Abelha foi o da regravação do clássico “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”, de Hyldon, presente no álbum “Meu Mundo Gira Em Torno de Você”, de 1996, que consiste basicamente na imagem de várias celebridades e anônimos dublando a música. Filmado no tradicional Copacabana Palace, aparecem ali, entre outros, Clóvis Bornay, Fernanda Abreu, Rui Amaral, Carla Marins, Gabriel O Pensador, Ivo Meirelles, Miguel Falabella, Claudio Lins, Christine Fernandes, Leonardo Vieira, Chico Diaz, Paulinho Moska, Rosana e Rodrigo Penna. A produção começa com a imagem em movimento de Paula Toller, Bruno Fortunato e George Israel parados em preto e branco, e sobrepostos uns aos outros. A partir daí, cada convidado aparece com um fundo de cor diferente, o que emite agilidade.

“Meu Mundo Gira Em Torno de Você” teve outro grande sucesso que ganhou um dos videoclipes mais aclamados da banda – “Te Amo Pra Sempre”. Sem dúvida, uma das produções mais divertidas protagonizadas pela banda, ela mostra os três rapazes tendo aulas de surf e na praia, na companhia de mulheres belíssimas e amigos associados ao habitat típico dos cariocas, Bocão, Antônio Ricardo e João Penca. Bastante elogiado pelos fãs, o biquíni de bolinhas usado por Paula Toller, que dança uma espécie de ula ula, com maracas nas mãos, faz parte indispensável do imaginário de todo maníaco por videoclipes.

Enquanto o clipe começa com o som de uma rádio sendo sintonizada e passando por vários estilos musicais, as imagens amarronzadas mostram pessoas na intitulada Ilha do Amor. A partir daí, Bruno e George aparecem fazendo micagens com outros rapazes diante de várias pranchas fincadas na areia, enquanto Paula Toller aparece com um chapelão. As imagens, então, estão oras em preto e branco, e oras coloridas. Um dos pontos negativos é o uso de chroma-key. Termina com novamente uma rádio sendo sintonizada, agora com a imagem dos três Kid Abelhas dentro d’água.

Outro videoclipe curioso protagonizado pelo Kid Abelha é a animação “Eu Contra a Noite”, faixa do álbum “Surf”, de 2001, o penúltimo de estúdio lançado pela banda. Mais uma direção de Lui Farias, esta produção começa com a imagem de um prédio, a câmera se aproxima e mostra o desenho de Paula Toller, como uma espécie de dobradura, deitada numa banheira de onde saem bolas de sabão com a imagem de Bruno Fortunato e George Israel dentro. Todos eles aparecem com as cabeças reais e os corpos desenhados. Supercolorido, ele possui cenas divertidas como a da cantora com suas intimidades cobertas com tarjas pretas, falando ao telefone com uma espécie de Zé Bonitinho. Ela, então, cai do prédio, abre uma sombrinha e sai andando como se nada tivesse acontecido, do mesmo modo que nos desenhos animados. Também há imagens dos músicos de carne e osso cantando e tocando seus instrumentos na frente dos desenhos. As várias caretas feitas por Bruno também são dignas de nota.

O último videoclipe digno de destaque do Kid Abelha é também para uma faixa do disco “Surf”. Trata-se de “Eu Não Esqueço Nada”, dirigido por outro craque, o pernambucano Lírio Ferreira. Inspirado no clássico do alemão Wim Wenders, “Asa do Desejo”, de 1987, ele começa com Paula Toller sentada no parapeito de um prédio recitando, em alemão, uma das falas do filme. Vê-se então imagens aéreas do Rio de Janeiro durante a noite e durante um dia outonal. A banda canta e toca em trajes de gala no topo de um prédio no centro da cidade. Mais denso e angustiante para o encerramento de uma carreira de 35 anos, impossível. Que Paula Toller, Bruno Fortunato e George Israel juntos farão muita falta, ah, isso farão, sem dúvida. Desejamos que eles tenham carreiras solos dignas do talento que possuem. E nós, de vez em quando, para matarmos as saudades tiraremos um velho disco de vinil da estante ou iremos ao YouTube em busca das imagens inesquecíveis do trio, principalmente em seus videoclipes.

Por Guilherme Bryan, criador e titular da coluna Brazucas.

Quinzenalmente, a coluna publica textos sobre o universo do videoclipe brasileiro.

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