#brazucas: Fernanda Abreu em 7 videoclipes

Na sexta-feira, 15 de abril, foi lançado o novo videoclipe estrelado por Fernanda Abreu, Outro sim, que marca a volta da “garota sangue bom” depois de dez anos sem músicas inéditas. A parceria dela com Gabriel Moura e Jovi Joviniano no sétimo disco de estúdio da cantora – também foram lançados um MTV Ao Vivo e um volume da série Perfil. Para relembrarmos a trajetória desta garota carioca que começou a carreira na Blitz e, após três álbuns, partiu em carreira solo em 1990, ano da estreia da MTV no Brasil, resolvemos escolher mais seis videoclipes.

Assinado por uma das diretoras veteranas em videoclipes, Mini Kerti, Outro Sim é um videoclipe bastante simples que mistura imagens em preto e branco de Fernanda Abreu contracenando com a câmera e dançando, em meio a vários outros dançarinos. Para interagir com eles, são inseridos diversos elementos da cor vermelha, que atingem desde detalhes do figurino, elaborado com o capricho usual da craque Cláudia Kopke, até a tela toda.

A letra é bem alto-astral, características das composições de Gabriel Moura, e as imagens se articularam totalmente com o ritmo: “Sempre haverá outro dia / Ensolarado e noite vadia / Sempre haverá outra chance / Outra mão ao alcance querendo ajudar / … / Outra cabeça, sentença / Outro recanto, encanto / Outra viagem, vertigem em outro mar / Outro sentido ou saída / Outra maneira ou medida / De dar a volta por cima, querendo dar”.

O curioso é que esse novo videoclipe remete de alguma maneira a ideia do primeiro estrelado sozinho por Fernanda Abreu em 1990, muito provavelmente para o programa dominical da TV Globo, Fantástico. Ou seja, a cantora, com diferentes figurinos, dançando e contracenando com a câmera. Só que aquela produção, dirigida por Gringo Cardia e Boninho, com direção de arte do então marido dela, Luiz Stein, hoje soa bastante datada em função do uso intenso de chroma-key e da multiplicação de Fernandas ou parte delas na tela.

O videoclipe é superdançante, bem de acordo com a letra da canção, que trata de uma das temáticas mais frequentes na obra de Fernanda Abreu, ou seja, a noite carioca: “A noite é negra / E os holofotes vasculham / Toda essa escuridão / À procura de um lugar ideal / Pra dançar e barbarizar / Dance / Se é que existe diferença entre o bem e o mal / Dance / Se é que existe diferença entre o inferno e o céu / Dance / Se é que existe diferença entre as trevas e a luz / Dance”.

A produção conta com a presença de outros dançarinos e termina com a popstar diante de uma espécie de nebulosa criada na pós-produção. Trata-se, portanto, de uma obra exemplar para se compreender como foi a virada dos videoclipes da emissora de maior audiência do país para a então recém-inaugurada MTV Brasil.

O primeiro videoclipe de Fernanda Abreu muito provavelmente foi Sla Radical Dance Disco Club, dirigido por Luiz Stein, e que combina muito com o tipo de produção que se fazia na época para a emissora norte-americano. Basta lembrar que neste momento foram realizados clássicos como U Can’t Touch This, do MC Hammer, e Groove is in the Heart, com Deee-Lite, que se tornaram ícones do início dos anos 1990. Essa produção da garota carioca sangue bom é muito mais dinâmica, com a multiplicação e sobreposição de imagens de diferentes origens, que vão desde um simples boneco Playmobil até cenas típicas de um baile funk. Imagens e letras, assim como quadrados e círculos, pulsam na tela ao ritmo da canção e serve com precisão para embalar as melhores baladas: “Ela gosta de excitar seus sentidos / De ampliar seu poder de observação / Seus olhos tentam ver tudo, e assim / Sua boca, sua mão e assim seu coração / E já não é uma noite como outra qualquer / E no centro da pista está a menina / Dançando, sorrindo e dançando / Seu corpo trabalha, trabalha sem parar”.

Também dirigido por Luiz Stein, o videoclipe Rio 40 Graus, utilizado para divulgar o segundo álbum de Fernanda Abreu, SLA 2 – Be Sample, de 1992, é bastante documental, mostrando imagens da intimidade da cantora na praia, em casa, na piscina, com a família, e num morro, misturadas com outras de anônimos jogando pelada na praia até tomando banho de mar, e do movimento caótico da cidade, tal como é descrito na letra composta por Fernanda, Fausto Fawcett e Carlos Laufer. O interessante é que as imagens aparecem no ritmo da canção. Então muitas vezes elas estão aceleradas e completamente borradas, causando uma sensação de imediatismo frenético.

As imagens, assim, vão ao encontro do retrato ácido e contemporâneo da capital carioca, com direito a remix de canções do Gilberto Gil no início, como Aquele Abraço: “A novidade cultural da garotada / Favelada, suburbana, classe média marginal / É informática metralha / Sub-azul equipadinha com cartucho musical / De batucada digital / Meio batuque inovação de marcação / Pra pagodeira curtição de falação / De batucada com cartucho sub-uzi / De batuque digital, metralhadora musical / De marcação invocação / Pra gritaria de torcida da galera funk / De marcação invocação / Pra gritaria de torcida da galera samba / De marcação invocação / Pra gritaria de torcida da galera tiroteio”.

O terceiro álbum de Fernanda Abreu, Da Lata, é referente a uma gíria do Rio de Janeiro que significa algo muito bom e refere-se ao denominado verão da lata, que teve início em 25 de setembro de 1987, quando 18 latas foram encontradas boiando próximo ao litoral de Maricá, no Rio de Janeiro, contendo maconha da melhor qualidade. A razão é que essas latas eram transportadas pelo navio Solana Star, que ia da Austrália a Miami, nos Estados Unidos, com 22 toneladas da droga.

“Mil novecentos e noventa e cinco / Sete e meia da manhã / Tá na hora de descer pra trabalhar / Tá na hora de descer pra ter / O que ganhar / Mil novecentos e noventa e cinco / Dez e vinte eu vou pra lá / (tá marcado pra chegar) / Ouviu dizer, ouviu falar / Não sabe bem, deixa pra lá / Dez e vinte eu vou chegar / Pra ver o que há / Suingue-balanço-funk / É o novo som na praça / Batuque-samba-funk / É veneno da lata (vamo bate lata)”, avisava a canção. Já o videoclipe começa com imagem da bandeira do Brasil, seguida por outra de uma garotinha usando óculos de sol na praia, com o Cristo Redentor refletido na lente. A música também se inicia com uma criança falando, acompanhada por sons percussivos. A partir daí, são misturadas imagens de Fernanda Abreu com diferentes figurinos dançando diante de várias latas, numa fábrica de latas e com a banda Funk’n Lata, de Ivo Meireles, com outras da cidade do Rio de Janeiro. Há ainda a participação especial, assim como na canção, de Herbert Vianna, com um figurino todo criado com latas.

Mas um dos videoclipes mais emblemáticos de Fernanda Abreu é Kátia Flávia, de Fausto Fawcett, no qual a cantora dá vida à garota belzebu provocante que só usa calcinhas comestíveis e bélicas com armamentos bordados. A produção, dirigida por Luiz Stein, começa com imagens borradas de uma garota de programa numa rua movimentada do Rio de Janeiro, ao som de alguém assoviando Garota de Ipanema, o clássico bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A partir daí, Fernanda aparece platinada, usando uma roupa de plumas, pilotando a toda velocidade um carro conversível e com uma arma na mão. No banco de trás, há dois homens armados, de óculos escuros e gorro. Ao lado dela, aparece, então, Fausto barbado e também de óculos escuros. Mais adiante, ele e os outros dois rapazes aparecem fantasiados de lobos. Já Fernanda vira, no final do clipe, a Mulher-Diaba, enquanto policiais sambam numa praia estilizada. As imagens são na maioria das vezes nebulosas e deformadas como se fossem raio-X.

Portanto, Outro Sim, além de ser um videoclipe muito bem-acabado, marca o retorno de uma artista que representou como ninguém a garota carioca nos anos 1990. Seja com uma pegada mais sensual, seja com um tom mais social e político, Fernanda Abreu sempre levou os jovens a se divertirem a noite e pensarem a respeito da cidade cosmopolita que representa o melhor e o pior do Brasil. Esperamos, assim, ansiosos pelo próximo álbum de inéditas para descobrir qual é o olhar que a garota sangue bom imprime desta vez para a nossa realidade multifacetada.

Por Guilherme Bryan, criador e titular da coluna Brazucas.
Quinzenalmente, a coluna publica textos sobre o universo do videoclipe brasileiro.

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