Mês das mulheres com clipes feito por mulheres!

Anaconda, da rapper Nicki Minaj, coloca em discussão diversas vertentes do ser  mulher (negra)

Como março é o mês das mulheres, o que não deve faltar no Clipestesia é análise de clipes que retratam essa luta que as mulheres têm que enfrentar desde o momento em que nascem. Anaconda, lançado por Nicki Minaj, tem sido constantemente injustiçado no que tange ao conteúdo, muitas vezes apontado como se objetificasse o corpo da mulher negra. Entretanto, é importante ter em vista que Nicki é uma mulher negra, ou seja, a objetificação não parte do que ela está fazendo com seu próprio corpo, mas sim dos olhos de quem está vendo.

Anaconda é uma música feita a partir de vários samples, sendo o principal deles “Oh my gosh, look at her butt”, de Baby Got Back do rapper norte-americano Sir Mix-A-Lot. Nele, teoricamente, o rapper tenta enaltecer a beleza da mulher negra colocando, logo no início, uma garota branca dizendo a frase sampleada por Nicki em Anaconda e colocando muitas garotas negras (with big butts) dançando no clipe. Entretanto, a suposta tentativa do rapper de enaltecer a beleza da mulher negra no clipe acabou por se tornar apenas mais um espetáculo de objetificação do corpo das mulheres, como é de praxe na Indústria Cultural.

Ao samplear o clipe do Sir Mix-A-Lot, Nicki está tentando dizer que “se é pra enaltecer a beleza da mulher negra, deixe que nós mesmas, que sabemos como o fazer, fazemos isso”. Então o clipe não deve ser visto como uma objetificação, mas como empoderamento das mulheres negras através de seus corpos.

São vários os elementos no clipe que nos levam a pensar desta forma. Entre eles, pode-se listar o sentimento de sisterhood entre Nicki e suas dançarinas: nunca, no clipe, são postas uma contra as outras, competindo de forma a se mostrarem mais bonitas ou talentosas, como é comum em outros clipes. Em Anaconda, as mulheres estão unidas, ajudando umas as outras a serem incríveis, não para homens, mas para elas mesmas.

anaconda

Não para homens porque outro elemento importante no clipe são as referências à figura masculina, mas sem ter um homem no clipe para as observar sendo incríveis. Figuras como bananas, pepinos etc. são constantemente postas em evidência, mas é pouco antes do final que elas mostram com qual objetivo foram colocadas ali. Nicki picota as bananas, quebra o pepino ao meio, joga a banana fora… tais atitudes demonstram uma quebra para com a figura masculina.

Nicki ainda tem mais uma afronta a fazer: com os padrões de beleza da indústria, os quais valorizam a beleza das mulheres brancas, magras e loiras. Anaconda não é um clipe feminista de modo geral, muito menos objetificador (e eu espero que a esse ponto do texto você já tenha percebido que tal pensamento sobre o clipe é absurdo e até mesmo uma ofensa). Ela especifica que o clipe é direcionado para o empoderamento das mulheres negras, que são postas, por homens brancos ou negros e pelas mulheres brancas, à margem da margem. Ela diz: “This one is for my bitches/ With a fat ass in the fucking club/ I said, where my fat ass big bitches/ In the club?/ Fuck the skinny bitches!/ Fuck the skinny bitches in the club!/ I wanna see all the big fat ass/ Bitches in the muthafuckin’ club/ Fuck you if you skinny bitches, what?”.

Anaconda2

Por fim, Nicki coloca no clipe um homem, o rapper Drake, sentado numa cadeira para vê-la dançar. Ela dança de forma bastante sensual, como faz normalmente, mas, como sempre, deixando claro que está no controle da situação. Por fim, quando Drake acaba colocando a mão nela, ela afasta a mão dele, afronta o cantor, vira as costas e vai embora, mais uma vez mostrando quem manda ali.

Nicki é reconhecida por muitos como a melhor rapper feminina do mundo, algo admirável visto que outras rappers que tentam fazer o que ela faz no sentido de por evidência os problemas socioculturais que as mulheres negras enfrentam, principalmente nos Estados Unidos, são tratadas pela mídia como loucas, barraqueiras e histéricas, como a rapper Azealia Banks. Figuras como a de Nicki, Beyoncé, Azealia… são de suma importância para o segmento do movimento feminista das mulheres negras, uma vez que trazem para os guetos o movimento feminista, que nos Estados Unidos é essencialmente branco e acadêmico.

Anaconda3

E que venham cada vez mais “Anacondas”, “Formations” e mais músicas que ponham em evidencia as lutas que mulheres, negros, LGBTQ e todas as minorias devem enfrentar para poderem ser reconhecidos como cidadãos merecedores de  direitos iguais aos do homem, branco, hetero, cis… Pois, como disse a cantora Pitty, “eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário”, a luta por direitos iguais vai continuar e quanto mais evidência essas lutas ganharem na mídia, melhor.

Ficha técnica

Título: Anaconda
Artista: Nicki Minaj
Álbum: The Pinkprint
Data de lançamento: 19/08/2014
Direção: Colin Tilley
Produção: Brandon Bonfiglio, Keith Louis Brown, Luga Podesta e Jamee Ranta
Cinematografia: Joseph Labisi
Produtora: London Alley Entertainment

Por Juliano Coelho

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