Isto não é um videoclipe

Beyoncé faz pensar: um produto “feito para vender” pode ser político?

Exatamente, isto não é um videoclipe. Isto com certeza não é APENAS um videoclipe. Isto é um ato político, uma crítica imponente que chegou de surpresa para todos. E chegou de onde muitos duvidavam que viria. Chegou reafirmando a cor que muito se deprecia. Chegou e incomodou àqueles que o discurso é incoerente. Formation, o mais novo clipe da cantora Beyoncé, traz consigo um questionamento já caduco na história da música: o entretenimento pode ser político? E a resposta deveria ser sempre sim… Mas, o que muito se pensa é que música e videoclipe existem apenas para distração, como se não existisse um diálogo necessário com o público, uma representação que afeta as identificações com os diversos estilos.

Divas pop sempre abordam assuntos do cotidiano geral muito importantes para se discutir. Em seus clipes e letras, questões como os distúrbios alimentares, o problema com os relacionamentos abusivos, o uso excessivo de drogas, o preconceito com os distúrbios mentais, o desconforto da dificuldade de socialização e afins. E com isso, Beyoncé não faz diferente e se arrisca a elaborar todas essas críticas sociais do que é ser negro em um país como os EUA, a violência policial, o descaso com as vidas perdidas nos incidentes do furacão Katrina. Além disso, Formation exibe um orgulho da estética negra, orgulho do que foi conquistado pelas próprias mãos e orgulho de suas personalidades de referência na história do povo negro norte-americano.

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Já faz tempo que o clipe saiu; Formation foi lançado no dia 6 de fevereiro de 2016. E foi lançado como contribuição às questões do negro, bem no comecinho das celebrações do Mês da História Negra Americana, que acontece sempre em fevereiro nos EUA e Canadá e em outubro no Reino Unido.  A data também foi escolhida (acidentalmente?) para estar entre as datas de aniversário de duas pessoas que faleceram por negligência: um dia antes do que seria o 29º aniversário de  Sandra Bland – que foi encontrada enforcada em uma prisão no Texas –, e um dia depois do inatingido 18º aniversário de Trayvon Martin – assassinado por um vigia voluntário de bairro por parecer suspeito em uma vizinhança não muito familiar a ele.

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O clipe, dirigido pela própria Beyoncé – que aparece afundando junto de uma viatura policial – referência explícita ao grupo extraparlamentar de auto-defesa, Os Panteras Negras (fundado em 1966 e dissolvido em 1982 e que posteriormente se tornou um partido político), grupo que tinha como objetivo a patrulha de bairros do gueto negro contra a truculência policial na cidade de Oakland que, muitas vezes, acabava por executar policiais. Sempre se justificando contra uma “América Branca” que, naquele momento, segregava e subjugava as vidas do povo negro. No clipe, esse grupo é manisfestado nos corpos de mulheres negras, evidenciando empoderamento e pondo a mulher negra como um símbolo de resistência na atual configuração social.

E com isso o clipe é empoderador: todos os seus participantes, com exceção dos policiais, são negros e são eles os mais diversos e reais. O cabelo, a textura e atitude do crespo, não poderia ser esquecido nesse gesto de orgulho negro; Beyoncé canta ao fundo “I like my baby heir with baby hair and afros” enquanto sua filha, Blue Ivy, dança com seu cabelo natural como em resposta às críticas constantes e conselhos não solicitados de como uma mãe negra deveria tratar do cabelo de sua filha. Outro ponto forte no clipe de Formation é a crítica clara à violência policial. As cenas tratam do assunto com ironia mas com delicadeza: o menino encapuzado que dança em frente a uma tropa policial que estaria pronta para atacar. Em seguida, um picho na parede grita “PAREM DE ATIRAR EM NÓS” em uma súplica de socorro, como em um simples pedido de quem é negligenciado apenas pela cor.

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Mas o mais interessante não é necessariamente seus aspectos visuais. O que vem em seguida surpreende. No dia seguinte ao lançamento do clipe, Beyoncé se apresentou no Superbowl, final do campeonato da liga nacional de futebol americano e um dos eventos televisionados mais assistidos no mundo. Beyoncé apresentou sua nova música para toda essa audiência e isso não agradou muito os apreciadores mais conservadores de sua performance, os quais pareciam desconhecer o fato de que ela é negra e tem muito a atribuir a esta luta.

As críticas a essa performance foram as mais cabulosas possíveis. A cantora foi atacada de todos os adjetivos ruins que possam existir, deixando transparecer os preconceitos que ainda residem, não apenas no vocabulário, mas em toda uma estrutura que degrada a mulher negra. A situação foi tão crítica que foi levantado um movimento de boicote à Beyoncé por parte de políticos republicanos conservadores, que consideraram a performance e o clipe nocivos à sociedade americana. Policiais de Miami também boicotaram um show que a cantora faria na cidade e até houve uma organização de protesto contra ela.

Repercussões assim é que fazem repensar o próprio papel da música. Como dizia Nina Simone, “O artista deve refletir seu tempo”, e com isso o artista incomoda. Incomoda mas também empodera muita gente; atribui força para um movimento social que, por vezes, parece esquecido. Mas este videoclipe, não é apenas um videoclipe, é um passo para uma outra perspectiva do que Beyoncé pode mostrar. É possivelmente um grande marco na carreira da cantora, que já foi muito julgada por não se mostrar política, por não utilizar seu espaço para trazer as questões do ser negro. Mas o momento chegou. E foi bonito. E com isso, percebe-se que política se faz em qualquer momento. Um ato político é muito mais do que um simples status consciente cidadão, política se faz presente nas representações, nas artes e no dia a dia de cada um.

Now, girls. Let’s get in formation.

Ficha técnica

Data de lançamento: 6 de fevereiro

Artista: Beyoncé

Direção: Beyoncé Knowles

Letra: Swae Lee & Beyoncé

Columbia Records/Sony BMG

Por Matheus Bibiano

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